Agenda Cultural                     .: Esta sessão é atualizada às sextas-feiras :.
      Francisco Soares Dias Sobrinho
 

Apucarana: Nossa Terra - Nossa Gente - I

Após encerrarmos a série de artigos em que focalizamos, sucintamente, a História da colonização do Norte do Paraná pela Companhia de Terras, faremos, doravante, e sem qualquer pretensão de querermos ser "o dono da verdade", abordagens fundamentadas em documentos e depoimentos de pioneiros, que com garra e determinação, fizeram a HISTÓRIA DE NOSSA TERRA - NOSSA GENTE. Aos que já se foram ou ainda sobrevivem e seus respectivos descendentes, os agradecimentos e as homenagens da família apucaranense pelo legado que deixaram à presente e as futuras gerações.

Pioneiro - E abrimos este espaço com o significado da palavra pioneiro que, segundo o lexicólogo Aurélio Buarque de Holanda Ferreira "é o explorador de sertões; o primeiro que abre ou descobre caminhos através de região mal conhecida. Diz-se da obra, serviço, iniciativa, idéia, etc, que se antecipa ou abre caminho a outros iguais ou similares".

Depoimento - Em um artigo inserido no Álbum Histórico do Jubileu de Prata de Apucarana, o engenheiro civil Joaquim Vicente de Castro conta: "Sou o primeiro pioneiro de Apucarana. Sempre recusei aos meus familiares fazer minha autobiografia e creio, teria muito material para esse fim. Ocupadíssimo, nada impede que aceite dialogar com qualquer interessado sobre os primórdios de Apucarana. Em meados da segunda década deste século (XX) fui, por aproximadamente por um ano, engenheiro chefe da Secção de Obras Públicas do Estado, no Governo do dr. Caetano Munhoz da Rocha. Ainda não existia a Companhia de Terras Norte do Paraná. Estava na cogitação dos ingleses chefiados por Lord Lovat a formação da futura madrasta de Apucarana".

A boiadeira - "Na época - prossegue - por empenho do sertanista Manoel Mendes de Camargo e outros, o governo estadual determinou que o topógrafo Roberto Gilhedon implantasse um picadão: a boiadeira que, partindo de Tereza Cristina nas margens do rio Tibagi-Ivaí aproveitando pequenas águas que vertessem para ambos os rios, continuando rumo a Mato Grosso, seu destino. Ele cruzou o córrego hoje chamado Barra Nova, então Cocho Comprido por terem aí deixado tal utensílio. A duras penas a boiadeira avançou até o pequeno riacho que a turma denominou de Mata Sede, inclusive suas margens, hoje Jandaia do Sul. No local, a sombra de índios fez que a turma de penetração recusasse apavorada para nunca mais voltar".


Dr. Joaquim Vicente de Castro (1897 - 1985), junto ao MARCO GRANDE, nome primitivo de Apucarana


Valorosos Sertanejos - "Os Sutil, grupo de famílias entrelaladas originárias de Assungui de Cima, sonhadores do campo-de-vaca-branca, o verdadeiro paraíso terrestre que imaginavam, por lenda, situar-se no Oeste paranaense, entraram pela boiadeira e para seu sustento e conforto foram plantando roças e levantando casebres rústicos pelo caminho e, sempre avançando durante alguns anos, chegaram em Mata-Sede. Garantido e retaguarda ficaram alguns deles formando pequenas aldeias, com as dos França e de Marilândia. Conheci ali algumas famílias desses valorosos e pacíficos sertanejos, como sejam: a dos Lino e dos Franças, e, em nossa zona, provisoriamente radicados, a dos Cordeiro e a dos Xavier", esclarece o dr. Joaquin.

Prefeito de Londrina - "Entrei aqui antes de ser o primeiro prefeito de Londrina, cujo o cargo assumi em 10 de dezembro de 1934. Parti de Jataizinho montando em minha besta e acompanhado pelo meu amigo Augusto Jopert cavalgando outra por mim alugada. Passamos por Londrina, na época um grande acampamento, atravessamos Cambé com seu único barracão de palmiteiro destinado ser bar pertencente ao sr. Cravo, corretor da Companhia. Prosseguindo encontramos uma esplanada natural onde ardia a mata derrubada que seria Rolândia, no fim da estradinha de três metros de largura e mal terminada. Continuamos pela picada de avançamento de agrimensura da Companhia, na qual ao anoitecer, encontramos um camarada que nos aconselhou entrarmos por um trilho à esquerda que nos levaria a uns ranchos de caboclos desconhecidos. De facão aviventamos a vereda, passamos por um marco gigantesco bem lavrado em madeira de lei. Estávamos na picada divisória feita abrir pelo dr. Ulisses Medeiros, do Comissariado de Terras, ficando as terras da Companhia à direita e as da sesmaria das Três bocas à esquerda. Prosseguindo saímos na boiadeira o logo em seguida avistamos uma luzinha".

Paraíso estava aqui mesmo - "Chegamos ao rancho de casal simpático, abrigado com seus filhinhos; ele de meia idade, cabelo escuro, alto, espadaúdo, nos ofereceu a pousada. Logo em começo de conversa nos disse ter aderido aos Gentis. Chamava-se Jonas Silva. Disse ter sido criado por meu avô Agostinho Vicente da Silva. Visinhava com o velho Ildefonso Xavier, situando-se suas morada na água do Cocho Comprido, a menos de um quilômetro do marco. Envolto pela grandiosidade da floresta tropical, num clima temperado e doce, acrescido do oxigênio, imaginei diferente dos Sutil que o paraíso estava aqui mesmo.Ainda grandemente emocionado por ouvir o desconhecimento pronunciar o nome de minha mãe e minhas tias, tomei uma decisão. Nesse momento prometi a mim mesmo, instalar naquela zona uma fazenda minha. Em Curitiba adquiri a área que eu desejava da firma Kosop, Wolf & Cia., nela abriu a Juruba, nome que também dei ao córrego principal".

Nome primitivo de Apucarana - Diz ainda o dr. Joaquim que "O MARCO GRANDE, foi por alguns anos a denominação de toda a região que depois se chamou Apucarana. O chalezinho que posteriormente construí e habito está, exatamente, junto do famoso marco em terreno anexo que comprei da Companhia.

Pioneiros - Esclarece também o dr. Joaquim que "o segundo pioneiro foi o sr. Carlos Schmidt, a quem emprestei o meu cavalo de montaria por algum tempo. Então eu já possuía pastagem e plantava café. O terceiro pioneiro, sr. Manoel dos Reis - fundador da Vila Reis - foi meu hóspede no maior rancho da zona, edificado com tábuas lascadas de pinho de tabuinhas bem alinhadas, na alta cabeceira do Juruba, sendo eu o mestre da construção. Chegando à estradinha onde seria cidade de Apucarana aí se fixaram animados pioneiros, muito dando de si para o bem público a ponto de fazê-la êmula de Londrina, sede administrativa da Companhia de Terras, na qual despertou ciumada e relativa omissão".

Classificado os verdadeiros pioneiros, enfatiza que "os estoicos nômades como os Gentis, não considero pioneiros. O mesmo não direi do meu velho amigo Benevides Mesquita, o impávido que atravessou toda esta floresta tropical numa bela montaria, que a serviço da Companhia de Terras Norte do Paraná procedia o levantamento cadastral dos moradores intrusos das terras, aos quais com transbordante nacionalismo, dava conselhos paternais para se afastarem após suas colheitas, evitando o incômodo dos despejados. Ele, Benevides é o pioneiro residente em Apucarana", conclui o dr. Joaquim Vicente de Castro.

 


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