Agenda Cultural                     .: Esta sessão é atualizada às sextas-feiras :.
      Francisco Soares Dias Sobrinho
 
A renúncia do prefeito Álvaro Aníbal - I

 

 

 

 

 

 

 

Álvaro Aníbal 
(esquerda) e 
Saul Guimarães 
da Costa, na 
transmissão do cargo

 

 

 

Álvaro Aníbal Lautenschlager era natural da cidade paulista de Rio Claro, filho de pai que professava a religião luterana e mãe católica, teve, segundo ele "uma educação rigorosa". Trabalhou na lavoura até os 16 anos, vindo para Apucarana com a esposa Antonieta Silva Lautenschlager e dois filhos, na década de 1950, para assumir a gerência da filial do Banco Brasileiro de Descontos S/A, onde trabalhou durante 17 anos. Era concunhado de Amador Aguiar, na época, o todo-poderoso dessa conceituada casa bancária. Como bancário ele afirmava que "para ser meu amigo, basta ser honesto" e sempre auxiliava quem precisava de seus préstimos.

Sua esposa tinha uma participação ativa em todas as campanhas de caráter filantrópico e em reconhecimento a sua atuação, a municipalidade, após seu falecimento, denominou de Antonieta Lautenschlager, a atual escola municipal localizada no Jardim das Flores, levando também seu nome à antiga Rua Ubatuba.

Álvaro desempenhou igualmente intensa atividade comunitária e social, como presidente da Associação Rural, fundador do Lions Clube, tesoureiro da Associação Comercial, membro da diretoria do extinto Banco de Crédito Rural do Paraná, juntamente com José de Oliveira Rosa (presidente) e Antônio Gilberto Victor (superintendente), presidente da Associação dos municípios do Paraná, etc.

PREFEITO - Pelo vasto círculo de amizade e credibilidade que grangeou junto a população, foi indicado pelo então prefeito dr. Marino Pereira (11-12-59 a 06-02-63), como candidato a sua sucessão nas eleições municipais de 06 de outubro de 1963, elegendo-se com 4.429 votos, pela coligação PDC- Partido Democrata Cristão, PTB - Partido Trabalhista Brasileiro e UDN -União Democrática Nacional, concorrendo com o ex-prefeito Jorge Amin Maia (11-12-1955 a 11-12-1958) pela coligação PL-Partido Liberal e PTN- Partido Trabalhista Nacional, que obteve 3.981 votos e o médico João Alfredo Gonçalves Pereira, pela coligação PSP - Partido Social Progressista, PR - Partido Republicano e PRP -Partido de Representação Popular, que recebeu 2.071 votos.

VEREADORES - Para Câmara Municipal foram eleitos, Yoshio Shinohara, dr. Moacyr Leocádio da Silva, Dirceu Borges, Lucílio dos Santos Vieira e Valdesir Pagani (PDC), Valmor Santos Giavarina, Tuany Ferreira Coutinho e dr. Antônio Luiz de Souza Rocha (PL), José Ramos de Oliveira e Argemiro Pires Furiatti (PTN), dr. Dilermando Ribeiro dos Santos e Heitor Antônio de Souza Pinheiro (PSP-PR-PRP).

DENÚNCIAS - O cirurgião-dentista Valmor era o único que fazia oposição ao prefeito no Legislativo e também no programa radiofônico "Crônica do Meio Dia", diariamente, pela Rádio Cultura de Apucarana, acusando-o, segundo nota publicada no jornal "O Estado do Paraná", edição nº 4.492, de 16 de junho de 1966, de "desvio de 100 milhões de cruzeiros, de ter gasto 50 milhões sem autorização legal, além de dar 25 milhões à pedreira municipal e mais 25 milhões à fabrica de tubos da municipalidade."

INQUÉRITO - As denúncias do edil e atendendo ainda ao pedido de uma comissão da Associação Comercial, o 13º Regimento de Infantaria, com sede em Ponta Grossa, instaurou um inquérito policial-militar, conduzido pelo coronel Luiz Gonzaga Pereira da Cunha, que determinou a formação de uma comissão de alto nível, integrada por pessoas indicadas pelo próprio prefeito, com observação do Exército, enquanto Álvaro encaminhava à Câmara Municipal, o pedido de licença que transcrevemos: "Em 14 de junho de 1966. Senhor Presidente. Os pesados e absorventes encargos da administração deste Município, e que notoriamente tenho me dedicado sem poupar tempo e energias, esgotaram, até a estafa das minhas forças. Solicito, assim, da Ilustre Casa, licença para me afastar da chefia do Executivo Municipal pelo período de 120 dias, a contar de 16 de junho corrente."

NOVO PREFEITO - Deveria substituí-lo o presidente da Câmara (pois ainda não havia o cargo de vice-prefeito). Todavia, a Câmara elegeu como seu substituto, o contador Saul Guimarães da Costa e "O Estado do Paraná" conta que ele "tomou posse no dia 16 de junho de 1966, às 11 horas, em solenidade rápida que contou com a presença do presidente da Câmara em exercício, Heitor Antônio de Souza Pinheiro, o capitão Luiz Carlos Fagundes Panza, comandante da Quarta Companhia aqui sediada, além de outras personalidades."

"No ato da transmissão do cargo - afirma ainda o jornal - Álvaro chorava copiosamente, dizendo mesmo é necessário o meu sacrifício. A Revolução não é contra ninguém. É a favor do Brasil, e por isso deve continuar." Disse ainda "que deixava nos cofres municipais 26 de milhões de cruzeiros, além de 126 milhões a serem recebidos, que farão face as despesas mais urgentes da municipalidade. Demonstrava profundo desgosto e a certa altura disse para o prefeito Saul "embora V.Exª. não tenha sido eleito como eu, pelo voto popular, já que o foi por eleição indireta, desejo-lhe uma gestão profícua a frente da prefeitura da nossa cidade. Nessa hora o sr. Álvaro Aníbal, mais uma vez chorou desesperadamente, parecendo acreditar que não mais voltaria ao seu cargo."

SURPRESA - Ainda segundo "O Estado do Paraná" o pedido de licença do sr. Álvaro Aníbal por 120 dias, se deu, pelo que conseguimos apurar, de uma maneira brusca, tendo mesmo o vice-prefeito Saul Guimarães da Costa salientado que durante o último fim de semana nada sabia a respeito do assunto. Foi tomado de surpresa ante o desenrolar dos acontecimentos."

Comentava ainda o jornal, em sua edição nº 4.493, de 17 de junho de 1966 que "o coronel Luiz Gonzaga Pereira da Cunha, responsável pelo IPM, na órbita do município, disse que espera uma conclusão para o processo dentro de 45 dias. Salientando que o que conseguiu apurar em 15 dias de trabalho, já deu para ter uma idéia do que existe de real na administração municipal e muita inverdade está sendo publicada sobre o assunto."


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