Agenda Cultural                     .: Esta sessão é atualizada às segundas-feiras :. Francisco Soares Dias Sobrinho
 

Apucarana: Nossa Terra - Nossa Gente - XXXI

O advogado Rui Pinto rememora com riqueza de detalhes, a viagem de trem que seu pai José Maria Pinto fez de Curitiba até Apucarana, para assumir o cargo de primeiro funcionário contratado e de primeiro secretário do Poder Executivo e de sua personalidade marcante, além da lembrança e da visão que tivera dos primórdios de nossa cidade nos idos de 1944.
"Vêm-me à memória - ele conta - a presença de um homem sobretudo simples, até diria, despojado de toda a vaidade do mundo, mas extremamente generoso, que viveu intensamente a vida desses tempos da cidade, e responde, mesmo modestamente, por uma parcela expressiva de sua história pioneira. Tenho lembrança, então, de que a primeira notícia da cidade foi meu pai que me deu. Era pelos fins de 1943, ou início de 1944."
A VIAGEM - " Ele partira de Curitiba para assumir o cargo de secretário da primeira administração do município recém-criado. O prefeito era o primeiro tenente Luiz José dos Santos, um homem muito alto e corpulento, que o vulgo tratava de "Mamão".
"A viagem era toda feita de trem, por um caminho de serpente, seguindo em direção de Ponta Grossa e depois, vergando para o Norte, avançava em direção de Jacarezinho, e prosseguia até Marques dos Reis, no entroncamento com a Sorocabana, pouco adiante onde os passageiros com destino ao Norte do Paraná faziam baldeação para uma composição provinda de São Paulo e que seguia agora no rumo Oeste, ultrapassando Cornélio Procópio, Londrina, até chegar em Apucarana, fim de linha. A viagem durava um dia e meio, e alguns passageiros levavam consigo um formido farnel para vencer a fome, pois os pontos de venda nas paradas do entremeio, só serviam café e sanduíche. Quando meu pai partiu ficamos todos ansiosos, no aguardo de notícias que logo vieram, porém, cifradas num telegrama, cujo dizeres guardo ainda: " Cheguei bem vg boa impressão vg aguarde carta pt".
A CIDADE - "Depois soube que essa tal de "boa impressão" foi apenas um eufemismo para confortar a família. Na verdade, ficara desolado. Chegara com chuva, à noite, sem luz, e no longo trajeto que fizera de charrete, subindo a av. Curitiba até um hotel no centro, viera amassando um barro mole, fundo e pegajoso, de tinta vermelha, que lhe deu ímpetos de voltar dali mesmo. A cidade era um acampamento amplo de casas de madeira, dispersas pelo dorso do espigão, todas elas manchadas de cor "roxa" da terra. Essa mesma cor forte da terra que virou símbolo da região, pelo milagre de fecundidade e de que produziu. Certamente, por muitos anos vi a cidade crescer, ganhar corpo e espaço por todos os lados, mas nunca perdi de vista essa primeira impressão, que meu pai me passou e que eu mesmo pude ter depois, talvez porque ela representasse um momento importante de reinício de vida, o renovar de esperanças, que, na voz geral, a cidade e a região prometiam".
PREFEITO - "Ele ocupou, inclusive, o cargo de prefeito, nomeado transitoriamente pelo então interventor federal Brasil Pinheiro Machado (25 de fevereiro a seis de outubro de 1946), dado que os historiadores da cidade inadvertidamente têm omitido".
LEGADO - "Meu pai não deixou herança material. Ele era um modesto funcionário municipal que vivia de seus parcos vencimentos e só teve de seu a casa onde morou. Mas, em compensação, recebemos dele, em vida, um legado muito rico do que os européis que tantos ostentam por aí. O que ele realmente nos transmitiu foi uma lição permanente de amor e o exemplo de uma inteireza de caráter, sem tricas nem perjúrio. Pelo amor, ele nos manteve sempre unidos, sem excluir ninguém. Filhos e netos à sua volta, até o fim de seus dias."
"Do caráter, tenho o testemunho dos mais velhos, que com ele conviveram e atestam o pudor moral que pôs em tudo o que fez. Ele era do tempo que um fio de bigode era o melhor aval... E aprendi com ele que, o ato de ficar com o dos outros não era só uma prova de inferioridade ética, mas mental, próprio das inteligências inferiores, dos caracteres bastardos, que subtraem o alheio pela impossibilidade fundamental de poder adquiri-lo por seu próprio esforço e merecimento".
LEMBRANÇA - "Assim, nesses tempos de Caim, de filicidios e outras vilanias, a lembrança da presença de meu pai é um reconforto para a alma, pois preserva valores morais que hoje são cada vez mais raros. Se pudesse fazer a comparação, diria dele, então, que sua presença entre nós se parece com a do milagre das Bodas de Cana da Galiléia, pois embora fossem poucas as talhas de água que a vida lhe reservou, ele as multiplicou e a fez transbordar do vinho mais saboroso que ainda hoje nos alimenta e nos inebria à sua lembrança. Nem todos podem se ufanar de deixar legados tão valorosos... Ele sim", conclui o dr. Rui Pinto.

Pioneiro José Maria Pinto

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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