NORTE VELHO - Assim ficou
conhecido, pois pelo que se tem notícia, se iniciou com a fundação em 1843
da localidade de Colônia Mineira, atual cidade de Siqueira Campos, seguindo-se
São José do Cristianismo em 1848, atual cidade de Wenceslau Braz; Jataizinho,
em 1850; Jaboticabal, em 1853, atual cidade de Carlópolis; Aldeamento de São
Tomás de Papanduva, em 1854, atual cidade de São Jerônimo da Serra;
Freguesia de N.S. da Conceição Aparecida, em 1867, atual cidade de Tomasina,
etc.
MISSÃO MONTAGU - No dia 30 de
dezembro de 1923, chegava ao cais da Praça Mauá, no Rio de Janeiro, o vapor
Araguaia, da Mala Real Inglesa, a convite do presidente da República Arthur da
Silva Bernardes (15-11-1922 a 15-11-1926), trazendo os componentes da Missão
Montagu, integrada por Lord Edwin S. Montagu, ex-secretário financeiro do
Tesouro da Inglaterra; Charles Addis, diretor do Banco da Inglaterra e
presidente da Hong-Kong and Shangai Banking; Hartley Withers, comentarista de
assuntos financeiros e ex-diretor do The Economist, de Londres; e Simon Joseph
Fraser - Lord Lovat - agrônomo e diretor da Sudan Cotton Plantations Sindicaty,
assessor para assuntos de agricultura e florestamento, que tinha também como
incumbência dos acionistas da Sudan Plantations, estudar a possibilidade de
vir essa poderosa empresa inglesa a aplicar seu capital no Brasil, de forma a
obter o algodão que importava em larga escala para suprir a florescente
indústria têxtil da Inglaterra.
Eles vieram visando, de um lado, a
consolidação da dívida do Brasil para com a Inglaterra e a reformulação do
nosso sistema tributário.
LORD LOVAT - Depois de cumprir sua
tarefa junto à missão, Lovat, que ficara deveras deslumbrado com a
fertilidade das terras roxas desta região, voltou à fazenda do major Antônio
Barbosa Ferraz Jr., no mês de janeiro de 1924, em Cambará, para estabelecer
negócios particulares vinculados à Sudan Plantations, sendo acompanhado
durante sua permanência aqui, pelo engenheiro Gastão de Mesquita Filho e o
prefeito de Jacarezinho, Willie da Fonseca Brabazon Davids, que os recepcionou
na sede de sua fazenda com um jantar, além dos fazendeiros e diretores da
Companhia Ferroviária São Paulo-Paraná, Antônio Ribeiro dos Santos e Manoel
da Silva Corrêa e outros convidados, quando trocaram idéias sobre as
plantações de café e algodão e discutiram o preço de terras nos arredores
de Cambará.
Observando pormenorizadamente os vistosos
pés de café e de algodão, Lord Lovat comentou enfaticamente: "Este é
um ideal que vocês, brasileiros, atingiram e para nós, agricultores no
Sudão, não passa de um sonho".
Havia, portanto, uma união de interesses
entre Lovat e os fazendeiros, com vistas a investimentos que possibilitassem a
continuidade das obras da Companhia de Ferro São Paulo-Paraná, ligando as
cidades de Ourinhos a Cambará, que já haviam sido iniciadas, com o objetivo
de transportar a safra de cereais até a cidade de São Paulo e o Porto de
Santos.
DEPOIMENTO - No livro
"Colonização e Desenvolvimento do Norte do Paraná", editado pela
Companhia Melhoramentos Norte do Paraná, Gastão Mesquita descreve com mais
detalhes a histórica reunião: "Depois do jantar passamos para o salão
de jogos e eu fui convidado pelo major Barbosa Ferraz para expor o plano de
construção da Estrada de Ferro até Cambará e de seu prosseguimento no rumo
das extensas glebas de terras roxas que existiam ainda por desbravar, além dos
rios Cinzas, Laranjinha, Tibagi e Ivaí. Sabia que Lovat desejava comprar
terras para plantar algodão, mas o meu intuito - confessa Gastão de Mesquita
- era despertar sua atenção para as imensas áreas de terras fertilíssimas
que uma colonização racional, feita com recursos suficientes que não
faltavam aos ingleses, poderia transformar em fonte de riqueza para muitos
agricultores e também para o Estado do Paraná e para a Nação."
FERROVIA - Diz ainda Gastão de
Mesquita que "sobre uma mesa de bilhar, na casa do major Barbosa Ferraz,
eu estendi um mapa e mostrei a Lord Lovat o traçado dos primeiros quilômetros
de ferrovia que deveria ser construída como espinha dorsal de um ambicioso
plano de colonização. Nada mais era do que o traçado Cincinato Braga, de
ligação com o Paraguai, que anos antes havia sido proposto no Congresso e que
não chegara a ser aprovado, embora fosse muito mais conveniente procurar
atingir esse país via Cambará e Guaira. Ao expor o plano eu ia desvendando a
Lovat a possibilidade de obter lucros e ao mesmo tempo servir ao país através
da abertura da estrada de ferro e da concomitante colonização nacional das
terras por elas cortadas."
Concluindo, afirma Gastão de Mesquita
que "esse sempre foi o meu fascínio, desde menino, desde estudante de
engenharia, quando passava horas e horas diante dos mapas de regiões virgens
pensando em como alcançá-las e como aproveitá-las. Foi por isso que não
hesitei um só instante em deixar tudo - a cidade, os amigos, o conforto - para
me embrenhar no mato e construir o trecho ferroviário Ourinhos-Cambará... Mas
eu falava a Lovat das vantagens da colonização, apoiada na construção de
estradas de ferro e na repartição inteligente das terras por elas
atravessadas. E não havia melhor ilustração para as minhas palavras que as
áreas que eu estava construindo, vilazinha que não pertencia ao município de
Jacarezinho."
"O prefeito desta cidade, Willie Fonseca Brabazon
Davids, um homem de grande visão, havia loteado algumas glebas urbanas de
Cambará e vendia a 50 mil réis o lote de meio quarteirão. Pois bem. Quanto
as notícias da aproximação começaram a circular, os preços dessas foram
subindo até atingirem, em um ano, até 50 contos de réis. É natural,
portanto, que Lovat se mostrasse deslumbrante diante de uma valorização de
mil por cento, quando na Inglaterra os bons negócios se faziam na base de
cinco por cento ao ano. Estou convencido de que essa demonstração da boa
oportunidade de lucro, possível com a aproximação de uma ferrovia,
constituiu a semente da Companhia de Terras Norte do Paraná", arremata
Gastão de Mesquita.