Agenda Cultural                     .: Esta sessão é atualizada às sextas-feiras :.
      Francisco Soares Dias Sobrinho
 

A Missão Montagu e o Norte do Paraná

 

 

 

Lord Lovat 
(esquerda) e 
Gastão de 
Mesquita Filho

 

 

Embora seja de suma importância o estudo da História como ciência que pesquisa, informa e critica os acontecimentos do passado, muito pouco tem sido divulgado, especificamente, a respeito dos primórdios do Norte do Paraná. Como simples e despretencioso observador dos fatos relacionados à nossa região, pretendemos, doravante, ocupar este espaço, primeiramente para comentarmos sobre o início de sua colonização e posteriormente, sobre a inserção de Apucarana no seu contexto.

NORTE VELHO - Assim ficou conhecido, pois pelo que se tem notícia, se iniciou com a fundação em 1843 da localidade de Colônia Mineira, atual cidade de Siqueira Campos, seguindo-se São José do Cristianismo em 1848, atual cidade de Wenceslau Braz; Jataizinho, em 1850; Jaboticabal, em 1853, atual cidade de Carlópolis; Aldeamento de São Tomás de Papanduva, em 1854, atual cidade de São Jerônimo da Serra; Freguesia de N.S. da Conceição Aparecida, em 1867, atual cidade de Tomasina, etc.

MISSÃO MONTAGU - No dia 30 de dezembro de 1923, chegava ao cais da Praça Mauá, no Rio de Janeiro, o vapor Araguaia, da Mala Real Inglesa, a convite do presidente da República Arthur da Silva Bernardes (15-11-1922 a 15-11-1926), trazendo os componentes da Missão Montagu, integrada por Lord Edwin S. Montagu, ex-secretário financeiro do Tesouro da Inglaterra; Charles Addis, diretor do Banco da Inglaterra e presidente da Hong-Kong and Shangai Banking; Hartley Withers, comentarista de assuntos financeiros e ex-diretor do The Economist, de Londres; e Simon Joseph Fraser - Lord Lovat - agrônomo e diretor da Sudan Cotton Plantations Sindicaty, assessor para assuntos de agricultura e florestamento, que tinha também como incumbência dos acionistas da Sudan Plantations, estudar a possibilidade de vir essa poderosa empresa inglesa a aplicar seu capital no Brasil, de forma a obter o algodão que importava em larga escala para suprir a florescente indústria têxtil da Inglaterra.

Eles vieram visando, de um lado, a consolidação da dívida do Brasil para com a Inglaterra e a reformulação do nosso sistema tributário.

LORD LOVAT - Depois de cumprir sua tarefa junto à missão, Lovat, que ficara deveras deslumbrado com a fertilidade das terras roxas desta região, voltou à fazenda do major Antônio Barbosa Ferraz Jr., no mês de janeiro de 1924, em Cambará, para estabelecer negócios particulares vinculados à Sudan Plantations, sendo acompanhado durante sua permanência aqui, pelo engenheiro Gastão de Mesquita Filho e o prefeito de Jacarezinho, Willie da Fonseca Brabazon Davids, que os recepcionou na sede de sua fazenda com um jantar, além dos fazendeiros e diretores da Companhia Ferroviária São Paulo-Paraná, Antônio Ribeiro dos Santos e Manoel da Silva Corrêa e outros convidados, quando trocaram idéias sobre as plantações de café e algodão e discutiram o preço de terras nos arredores de Cambará.

Observando pormenorizadamente os vistosos pés de café e de algodão, Lord Lovat comentou enfaticamente: "Este é um ideal que vocês, brasileiros, atingiram e para nós, agricultores no Sudão, não passa de um sonho".

Havia, portanto, uma união de interesses entre Lovat e os fazendeiros, com vistas a investimentos que possibilitassem a continuidade das obras da Companhia de Ferro São Paulo-Paraná, ligando as cidades de Ourinhos a Cambará, que já haviam sido iniciadas, com o objetivo de transportar a safra de cereais até a cidade de São Paulo e o Porto de Santos.

DEPOIMENTO - No livro "Colonização e Desenvolvimento do Norte do Paraná", editado pela Companhia Melhoramentos Norte do Paraná, Gastão Mesquita descreve com mais detalhes a histórica reunião: "Depois do jantar passamos para o salão de jogos e eu fui convidado pelo major Barbosa Ferraz para expor o plano de construção da Estrada de Ferro até Cambará e de seu prosseguimento no rumo das extensas glebas de terras roxas que existiam ainda por desbravar, além dos rios Cinzas, Laranjinha, Tibagi e Ivaí. Sabia que Lovat desejava comprar terras para plantar algodão, mas o meu intuito - confessa Gastão de Mesquita - era despertar sua atenção para as imensas áreas de terras fertilíssimas que uma colonização racional, feita com recursos suficientes que não faltavam aos ingleses, poderia transformar em fonte de riqueza para muitos agricultores e também para o Estado do Paraná e para a Nação."

FERROVIA - Diz ainda Gastão de Mesquita que "sobre uma mesa de bilhar, na casa do major Barbosa Ferraz, eu estendi um mapa e mostrei a Lord Lovat o traçado dos primeiros quilômetros de ferrovia que deveria ser construída como espinha dorsal de um ambicioso plano de colonização. Nada mais era do que o traçado Cincinato Braga, de ligação com o Paraguai, que anos antes havia sido proposto no Congresso e que não chegara a ser aprovado, embora fosse muito mais conveniente procurar atingir esse país via Cambará e Guaira. Ao expor o plano eu ia desvendando a Lovat a possibilidade de obter lucros e ao mesmo tempo servir ao país através da abertura da estrada de ferro e da concomitante colonização nacional das terras por elas cortadas."

Concluindo, afirma Gastão de Mesquita que "esse sempre foi o meu fascínio, desde menino, desde estudante de engenharia, quando passava horas e horas diante dos mapas de regiões virgens pensando em como alcançá-las e como aproveitá-las. Foi por isso que não hesitei um só instante em deixar tudo - a cidade, os amigos, o conforto - para me embrenhar no mato e construir o trecho ferroviário Ourinhos-Cambará... Mas eu falava a Lovat das vantagens da colonização, apoiada na construção de estradas de ferro e na repartição inteligente das terras por elas atravessadas. E não havia melhor ilustração para as minhas palavras que as áreas que eu estava construindo, vilazinha que não pertencia ao município de Jacarezinho."

"O prefeito desta cidade, Willie Fonseca Brabazon Davids, um homem de grande visão, havia loteado algumas glebas urbanas de Cambará e vendia a 50 mil réis o lote de meio quarteirão. Pois bem. Quanto as notícias da aproximação começaram a circular, os preços dessas foram subindo até atingirem, em um ano, até 50 contos de réis. É natural, portanto, que Lovat se mostrasse deslumbrante diante de uma valorização de mil por cento, quando na Inglaterra os bons negócios se faziam na base de cinco por cento ao ano. Estou convencido de que essa demonstração da boa oportunidade de lucro, possível com a aproximação de uma ferrovia, constituiu a semente da Companhia de Terras Norte do Paraná", arremata Gastão de Mesquita.


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