Agenda Cultural                     .: Esta sessão é atualizada às sextas-feiras :.
      Francisco Soares Dias Sobrinho
 

Projeto de Colonização do Norte do Paraná

 

 

A primeira locomotiva 
da Estrada de Ferro 
São Paulo - Paraná, 
chegou em Apucarana, no 
dia 19 de abril de 1943

 

Como falharam as tentativas para cultivar algodão, os ingleses voltaram os olhos para o que lhes demonstrava ser um dos melhores negócios do mundo: a colonização. E para tanto, a Companhia de Terras Norte do Paraná adotou diretrizes bem definidas. As cidades destinadas e se tornarem núcleos econômicos de maior importância seriam demarcadas de cem em cem quilômetros, aproximadamente, como acontece com Londrina, Maringá, Cianorte e Umuarama. Entre estes, distanciados de dez a quinze quilômetros um do outro, seriam fundados os patrimônios, a exemplo de Cambé, Rolândia, Arapongas, Apucarana, etc. Afora o espetacular crescimento experimentado pelos núcleos econômicos, que superaram todas as previsões, também os povoados intermediários desenvolveram e transformaram-se em grandes cidades, acompanhando o índice de extraordinário sofrido pela região.

Tanto nas cidades como nos patrimônios a área urbana apresentava uma divisão em datas residenciais e comerciais. Ao redor das áreas urbanas se situariam cinturões verdes, isto é, uma faixa dividida em chácaras que pudessem servir para a produção de gêneros alimentícios de consumo local, como aves, ovos, frutas, hortaliças e legumes.

Área Rural - Seria cortada de estradas vicinais, abertas de preferência ao longo dos espigões, de maneira a permitir a divisão de terra da seguinte maneira: pequenos lotes de 10,15 e 20 alqueires, com frente para a estrada de acesso e fundos para o ribeirão. Na parte alta, apropriada para plantar café, o proprietário de gleba desenvolveria sua atividade agrícola básica: cerca de 1.500 pés por alqueire. Na parte baixa construiria sua casa, plantaria a sua horta, criaria os seus animais para consumo próprio e formaria o seu pequeno pomar. A água seria obtida no ribeirão ou em poços de boa vazão.

As casas de vários lotes contíguos, alinhados nas margens dos cursos d'água formariam comunidades que evitassem o isolamento das famílias e favorecessem o trabalho em mutirão, principalmente na época da colheita do café, que para a maioria dos pequenos produtores representava lucro líquido de sua atividade independente, porquanto no decorrer do ano ele viveria - consumindo o necessário e vendendo o supérfluo - das culturas paralelas: arroz e milho plantados por entre as fileiras de café novo.

Pequeno Proprietário - Ele não agiria como o grande fazendeiro de café, que produzia grandes safras e as comercializava nos grandes centros, diretamente em São Paulo ou em Santos. Ele venderia seu pequeno lote de sacas de café nos patrimônios, aos pequenos maquinistas, que por sua vez comercializavam a sua produção nas cidades maiores, já com representantes das casas exportadoras. Por outro lado, esse pequeno proprietário não gastaria o dinheiro recebido como o grande fazendeiro, nas grandes cidades. Ele o gastaria ali mesmo, no comércio estabelecido nos patrimônios, gerando assim uma distribuição de interesses a uma circulação local de dinheiro que constituiriam um salutar fator de progresso local e regional.

Visita do Príncipe - O mais antigo funcionário da Companhia, Gordon Fox Rule, também conta como foram os primeiros tempos da colonização: "Um episódio interessante ocorrido durante a fase inglesa na Companhia foi a visita que nos fez o Príncipe de Gales, que posteriormente viria a ser o Rei Eduardo VIII da Inglaterra. Consta que ele era grande acionista da empresa Paraná Plantations (que antecedeu a Companhia de Terras), daí o seu interesse em visitar as terras do Norte do Paraná. Ele chegou acompanhado de numerosa comitiva, na qual estavam incluídos Lord Lovat. Em trem especial da Estrada de Ferro Sorocabana os visitantes viajaram até Cambará, onde foram recepcionados na fazenda do major Antônio Barbosa Ferraz Jr."

Os Índios - Ele conta também que "certa vez paramos na estrada para encher de água o radiador do nosso fordeco e de repente ouvimos de todos os lados, vindos da mata, o som de paus batendo nas árvores. Eram os índios que então existiam nos arredores do que viria a ser nossa progressista Londrina. Isso foi em 1930. Lembro-me bem de que todos queriam correr, mas eu os acalmei e disse que fizessem tudo com naturalidade. Pouco a pouco nos aproximamos do automóvel, sempre ao som das batidas nas árvores, enchemos de água o radiador e zarpamos a toda velocidade. Nessa época Londrina era uma clareira cercada de mato muito alto, com muito palmito que comíamos preparados de várias maneiras durante nossa permanências no lugar".

"Jardineira" - Em 1932, Celso Garcia Cid trabalhava como motorista da Companhia, que a certa altura decidiu entregar os serviços de transporte de compradores de suas glebas a quem se interessasse em explorá-los e expandi-los para atender a outros viajantes. O motorista percebeu a oportunidade, pediu demissão do seu emprego, comprou a velha "jardineira" e lançou-se de corpo e alma a sua própria e trabalhosa empreitada. E venceu.

Pioneirismo - A primeira caravana de compradores de terras chegou ao Patrimônio Três Bocas (atual Londrina) em dezembro de 1929 e era composta de oito japoneses que vieram acompanhados do agenciador de terras da Companhia, Hikomo Udihara. Em 1930 surgiu a primeira casa de madeira de Londrina, construída por Alberto Kock. Segundo um relatório da Companhia de Terras, em 1935, já haviam 1.266 brasileiros, 479 alemães, 476 italianos, 434 japoneses, 216 espanhóis, 156 portugueses, 98 húngaros, 75 ucranianos, 60 thecos, 41 russos, 32 austríacos, 20 suíços, 19 lituanos, 15 romenos, 6 iugoslavos, 6 ingleses e pessoas de outros países, já tinham comprados lotes, sítios e fazendas.

Estrada de Ferro - No início de década de 1930, os trilhos de Estradas de Ferro São Paulo - Paraná, chegavam apenas até Jataí (atual Jataizinho) a margem do Rio Tibagi, sendo necessário transpô-lo por meio de uma balsa e depois percorrer cerca de 25 quilômetros de estrada de rodagem até atingir Londrina.

A obra teve prosseguimento em 1932 a após a construção de uma ponte em 1935, atingiu Londrina, Cambé, Rolândia, Arapongas, Apucarana, onde chegou em 1943, Maringá, em 1954, Cianorte e Umuarama.

 


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