Moradores da região com parentes em SC vivem tensão
A enchente que assola Santa Catarina também trouxe pânico para muitos moradores da região que têm parentes vivendo naquele Estado. Vários jovens de Apucarana, Arapongas e de todo o Vale do Ivaí estudam em faculdades catarinenses e também sofreram os impactos da chuva que não pára de cair desde o último domingo em Santa Catarina. Muitas pessoas também possuem parentes que vivem e trabalham na área afetada pela enchente e que ficaram desesperados com as notícias e as imagens retratadas pela televisão e jornais de todo o País.
O apucaranense Rubens Ferreira da Silva é um desses exemplos. O filho Bruno Berndsen da Silva, de 23 anos, mora em Blumenau há oito meses, onde faz estágio em uma empresa de transformadores. “Ficamos muito assustados, porque Blumenau foi uma das cidades mais atingidas”, conta o pai.
Bruno mandou um email para amigos e familiares com dezenas de fotos. Ele também contou um pouco do que está acontecendo em Blumenau e no Estado de Santa Catarina. O retrato feito pelo apucaranense mostra um cenário de guerra. “No lugar onde eu moro, a água não chegou a invadir minha casa, apesar de ficarmos ilhados por dois dias por causa de enchente e lama. Mas fomos todos afetados. A casa de vizinhos meus desmoronaram na nossa frente. Parecia cena de filme”, conta o jovem, que está concluindo a faculdade de Engenharia Elétrica em SC.
Bruno está ajudando como voluntário no trabalho de resgate e diz que a situação é muito pior do que a mostrada na TV. “O que aconteceu foi uma catástrofe, pois a televisão não divulga para não alarmar, mas a gente no trabalho do dia-a-dia escuta de regiões em que morros inteiros cederam e até agora ninguém tem informação nenhuma das pessoas”, diz.
Ele conta que as pessoas sofrem com a falta de comida e água. “Quase toda a comida da geladeira estragou. Os mercados estão cada vez mais desabastecidos e aí entra o desespero de gente querendo estocar, gente colocando os preços lá em cima, e chega a ser triste de ver as pessoas passando fome por não ter mais nem dinheiro para comprar. Não tem mais água nem de poços artesianos. Na maioria dos lugares e com as quedas de barreiras, está difícil dos caminhões chegarem com esses tipos de coisa”, conta.
O jovem apucaranense mostra o drama de Santa Catarina até nas coisas básicas. “Estamos tendo que usar água da chuva como descarga”, revela. Ele acrescenta que é preciso buscar galões de água em outras cidades e o combustível está no fim. Apesar dos saques, ele afirma que a solidariedade une a maioria das pessoas. “Nós de casa e da vizinhança nos juntamos e arrecadamos o que pudemos de roupa e comida, apesar de que também estamos passando por privações. Está acontecendo uma conscientização geral da cidade e todos estão ajudando nos abrigos. Não existe um bairro ou uma vizinhança que alguém não perdeu tudo”, revela. Sentindo na pele os problemas, o jovem faz um apelo aos amigos para que ajudem com doações a população catarinense.
Pais de araponguense moram em Itajaí
O publicitário araponguense Walter Anselmo Júnior, cujos pais e irmão vivem em Itajaí, uma das cidades mais atingidas pelas chuvas, levou um susto quando viu as imagens da destruição pela tevê. Na terça-feira da semana passada, seu pai já se mostrava preocupado com a água que não parava de cair. E continuou durante toda a semana. No último domingo de manhã, Júnior recebeu a notícia por telefone que o nível dos rios Itajaí e Itajaí Mirim já tinha subido tanto, que 85% por cento da cidade estava alagada. “Na hora, entrei em desespero. Havia várias pessoas chorando, que perderam tudo. A cidade estava irreconhecível”, conta.
Por sorte, sua família mora no Bairro Cordeiros, próximo ao centro da cidade, um dos poucos locais que não ficaram submersos. Não houve perdas materiais nem ferimentos entre seus parentes, mas o caos foi dividido por todos. O fornecimento de água foi cortado e, num raio de 150 metros, tudo ficou ilhado. “Se tivesse chovido forte por mais duas horas, a casa dos meus pais também seria alagada”, afirma.
Júnior conta que a grande preocupação do momento é a ajuda aos atingidos. Somente em Itajaí, pelo menos 40 mil pessoas tiveram que deixar suas casas para se alojar em abrigos. Até ontem, duas mortes foram registradas no município. “A maioria das pessoas não pode arcar com comida e roupas. Os alimentos demoram para chegar por causa das estradas inundadas. Até havendo ainda toque de recolher por causa dos saques que estão acontecendo. Por esses motivos, é extremamente importante que as pessoas ajudem”, diz.
Pontos de ajuda
A Defesa Civil, em Apucarana e Arapongas, se mobiliza para ajudar as vítimas das chuvas em Santa Catarina. Em Arapongas, os cidadãos podem depositar qualquer quantia em dinheiro nas contas: Banco do Brasil - Agência 3582-3, Conta Corrente 80.000-7. E Besc - Agência 068-0, Conta Corrente 80.000-0. Em Apucarana, as doações de dinheiro, alimentos, roupas e calçados podem ser feitas na sede do Corpo de Bombeiros, na Rua Ponta Grossa, número 1949.
Enchentes já mataram 99 pessoas
Doze cidades estão em situação de calamidade pública, de acordo com o decreto do governador de Santa Catarina, Luiz Henrique da Silveira (PMDB). São eles: Benedito Novo, Blumenau, Brusque, Camboriú, Gaspar, Ilhota, Itajaí, Itapoá, Luis Alves, Nova Trento, Rio dos Cedros e Rodeio. O decreto, assinado na quarta-feira (26) e divulgado na quinta-feira (27), vale por 180 dias.
Segundo o mais recente balanço da Defesa Civil do Estado, 51.297 moradores estão desalojados e 27.410 desabrigados. O número de mortos é de 99 e 19 pessoas estão desaparecidas.
Na noite de quinta-feira (27), a Defesa Civil divulgou um alerta à população para o risco de novos desabamentos nos próximos dias, devido a queda do nível das águas que tomam muitas cidades de Santa Catarina.
De acordo com Epagri/Ciram (Centro de Informações de Recursos Ambientais e de Hidrometeorologia de Santa Catarina), à medida que as águas das chuvas começam a baixar, as pedras das encostas tendem a se solta, provocando novos deslizamentos. O instituto também destaca que o relevo íngreme da região favorece os novos deslizamentos.