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Padres desbravam Amazônia
em projeto de evangelização
Cássio Gonçalves
Em missão há oito meses em Corumbiara, uma cidade de Rondônia a 40 quilômetros da fronteira com a Bolívia, os padres apucaranenses Adriano Ferreira e Jéferson Nogueira da Matta encontraram uma realidade diferente da que é geralmente atribuída à região. Após décadas de desmatamentos, a cidade está cada vez mais urbanizada. No entanto, como relatam, a pobreza ainda está presente na vida de um povo marcado por uma história de violência e conflitos agrários.
A ida dos padres apucaranenses para Rondônia atende a apelos da Igreja Amazônica, carente de líderes religiosos. Para ajudar aquela comunidade, em outubro de 2007 foi iniciado o projeto “Igrejas Irmãs”, com o envio de missionários e ajuda financeira à região. No começo deste ano, a diocese de Apucarana passou a atender a Paróquia do Perpétuo Socorro, de Corumbiara, diocese de Guajará-Mirim. Além dos dois sacerdotes, o diácono permanente Celso da Silva também participa da missão.
Ao chegarem ao estado, em fevereiro, os missionários revelaram encontrar uma situação diferente da esperada. Apesar da pobreza e da dificuldade de acesso a algumas localidades, a região dá os primeiros sinais de urbanização. “Achei que iria ser bem mais difícil. Temos asfalto e todas as necessidades básicas supridas. Em relação a outros lugares do país, somos privilegiados”, diz o padre Jéferson Nogueira da Matta.
O padre Adriano Ferreira diz que não houve dificuldade de adaptação à cultura local. Ele afirma que a maioria da população é formada por imigrantes de outros estados do país, a maior parte deles, paranaenses que aproveitaram a abertura de terras a partir da década de 70. “Por se tratarem de imigrantes, não há muita diferença na atuação pastoral e na manifestação da fé das pessoas”, diz. Segundo ele, apesar da carência espiritual e social, as pessoas respondem bem aos trabalhos realizados. “Eles são curiosos, tem vontade de conhecer as coisas, sede de saber”, elogia.
De acordo com padre Jéferson, ao contrário do que se poderia imaginar de uma região amazônica, são poucas as áreas que preservaram suas florestas. “Houve muito desmatamento nas décadas passadas. No município em que estamos existe apenas uma reserva ambiental, onde vivem cerca de dez índios, já velhos”, revela o padre.
Distância é barreira para a missão
De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o município de Corumbiara tem 9.409 mil habitantes, distribuídos em 3.060 km2. Para os padres apucaranenses, a distância é a principal dificuldade no atendimento às comunidades locais. Para realizar as visitas, eles têm de fazer verdadeiras viagens, que às vezes duram quase 10 horas, com barcos ou veículos com tração nas quatro rodas.
Recentemente, os missionários tiveram que navegar no Rio Guaporé durante 7 horas para visitarem uma comunidade de ribeirinhos a 40 quilômetros da Bolívia. Durante o trajeto, eles puderam apreciar a beleza natural do lugar e ver de perto animais como onças e jacarés que antes só viam pela televisão. Na chegada, perceberam que, na pobreza, a solidariedade não tem limites.
“Nós atendemos três comunidades bolivianas e é possível perceber que, mesmo não fazendo fronteira com o país, eles conviviam com os brasileiros como irmãos. Eles estão sempre juntos e se ajudam muito”, diz o padre Jéferson Nogueira da Matta, acrescentando que, “pelo menos na periferia do estado não percebemos nenhum preconceito entre os moradores dos dois países”.
Conflitos agrários ainda na memória
A história do município de Corumbiara é marcada por violência e conflitos fundiários. O mais grave deles ocorreu em 1995, quando centenas de famílias de camponeses ocuparam a fazenda de Santa Elina e foram torturados e sumariamente executadas por policiais e jagunços dos proprietários de terras da região. O episódio ficou nacionalmente conhecido como o “Massacre de Corumbiara”.
Treze anos depois da tragédia, o padre Jéferson Nogueira da Matta afirma que o risco de novos confrontos ainda é latente. “Nesse ano, queríamos fazer uma missa em celebração aos mortos do massacre, na mesma fazenda em que ele ocorreu. Só em cogitar essa possibilidade, várias pessoas foram ameaçadas e jagunços chegaram a dar tiros para o alto na propriedade, sendo necessária a intervenção da Polícia Federal”, diz.
Os padres tiveram que realizar a missa em outro lugar. Mesmo correndo riscos, eles permanecem com a missão de levar conforto e paz ao coração de pessoas menos favorecidas material e espiritualmente. Apesar de assumir o perigo, Jéferson não fala em medo. Para ele, nessas relações a postura que deve prevalecer é a de prudência. “O melhor, nessas situações, é não tocar para não sangrar”, diz.
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