Para arcebispo de Aparecida, visita do papa não assumirá significado político
Radiobras
O papa Bento XVI chega ao Brasil amanhã (9) com duas missões principais: participar da abertura da 5ª Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e do Caribe (Celam), marcada para domingo (13), em Aparecida (SP), e celebrar a missa de canonização do Frei Galvão, na sexta-feira (11), no Campo de Marte, em São Paulo.
Para o arcebispo de Aparecida, dom Raymundo Damasceno, a visita do papa ao Brasil não assumirá um significado político. “Sua visita não tem um caráter político, não tem um objetivo político, mas um objetivo pastoral, evangelizador, porque o anúncio do Evangelho faz parte da missão da Igreja”, afirmou o religioso.
Em entrevista à Agência Brasil, o arcebispo falou sobre o significado da visita do papa Bento XVI ao Brasil, sobre a importância da Igreja Católica na América Latina e sobre a Celam.
“Temos que colocar no centro de qualquer projeto político e econômico a pessoa humana, sua dignidade, seus direitos. Acho que as conferências episcopais gerais da América Latina sempre tiveram essa característica, sempre tiveram um fio condutor. Todas essas conferências foram sempre [centradas] na pessoa humana, na sua dignidade, nos seus direitos à vida”, disse dom Raymundo Damasceno. Confira a entrevista.
Agência Brasil: Qual o sentido da visita do papa ao Brasil?
Dom Raymundo Damasceno: O papa Bento XVI vem ao Brasil para inaugurar a 5ª Conferência Geral dos Bispos da América Latina e do Caribe. Esta é a razão de sua viagem. Mas o santo padre também decidiu cumprir uma programação em São Paulo, onde ele vai aterrissar no dia 9 [quarta-feira]. E em São Paulo, fundamentalmente, ele tem umas atividades importantes: a primeira, um encontro com os jovens no Pacaembu. Depois, no dia 11 de maio, no Campo de Marte, é esperada a participação de 1 milhão ou mais de pessoas na celebração eucarística presidida pelo papa e durante a qual ele vai canonizar o beato Antônio de Sant’Anna Galvão, o primeiro santo brasileiro. Aparecida é a meta final de sua viagem e, ao mesmo tempo, a razão de sua viagem, que é a abertura da conferência.
ABr: Qual a mensagem que o papa está trazendo?
Damasceno: Não sei porque não tenho conhecimento dos discursos do santo padre. Mas certamente é uma mensagem de esperança para toda a Igreja, para todo o povo da América Latina e do Caribe. É uma mensagem que vem nos confirmar na fé de nosso Senhor Jesus Cristo, caminho, verdade e vida. É uma mensagem, com certeza, em defesa da pessoa humana, de sua dignidade; uma palavra em defesa da vida e da família. Uma mensagem certamente portadora de paz para toda a América Latina.
ABr: Essa visita do papa também teria um sentido político?
Damasceno: Não tem um sentido político. É uma visita pastoral do papa à América Latina, no caso, ao Brasil. É alguém que vem ao encontro do povo da América Latina e do Caribe. É um gesto de afeto, de amor e de solidariedade não só para com os fiéis da Igreja Católica, mas para com todo o povo da América Latina e do Caribe. Portanto sua visita não tem um caráter político, não tem um objetivo político, mas um objetivo pastoral, evangelizador, porque o anúncio do Evangelho faz parte da missão da Igreja.
ABr: Como o senhor analisa hoje a Igreja Católica na América Latina?
Damasceno: Quase a metade dos católicos está no continente latino-americano. Essa também é uma das razões da viagem do santo padre: é uma maneira de reconhecer hoje a importância da Igreja no continente latino-americano; é uma maneira de vir a fortalecer a fé no seu rebanho; é uma maneira de despertar em todos nós um ardor, um entusiasmo missionário para podermos testemunhar esse mesmo Jesus Cristo em nossa vida particular, e também na nossa vida social.
ABr: A Igreja Católica está perdendo sua influência no mundo moderno?
Damasceno: Pelo contrário: nós vemos essa presença do papa, de certo modo, mexendo com todo o Brasil e toda a América Latina. Nenhum líder mundial é capaz de atrair tanta gente para ouvir, para ser visto ou para ser ouvido. A presença do Santo Padre e o interesse que sua visita desperta em tantas pessoas e em tantos segmentos da sociedade nos mostra que a Igreja é ouvida e respeitada. A Igreja não está perdendo; a Igreja está firmando cada vez mais sua identidade.
ABr: O secretário do estado do Vaticano, Tarciso Bertone, disse que o papa vai falar sobre o direito à vida, a violência, a pobreza e a questão das desigualdades em sua vinda ao Brasil. Esses são os maiores problemas da América Latina hoje? A Igreja pode ajudar a resolvê-los e como ela poderia fazer isso?
Damasceno: Os problemas são múltiplos. Um deles é o aprofundamento da nossa fé. Mas há desafios como a crise da família, a crise de valores na sociedade. Depois, sem dúvida nenhuma, há ameaças contra a vida. Esses atentados manifestam-se de muitas maneiras: não só nos homicídios, acidentes de trânsito, assaltos e na violência das grandes cidades. Mas no atentado contra a vida dos inocentes desde o início da concepção até o seu termo natural e, muitas vezes, até a ameaça de facilitar ou legalizar o aborto e a eutanásia. E o papa certamente vai, de uma forma ou de outra, abordar esses temas. Não sei se ele abordará todos, mas certamente alguns. Quem sabe uma palavra alentadora, iluminadora, que será muito importante não só para a Igreja como também às pessoas de boa vontade que estão abertas para refletir.
ABr: Como a Igreja tem agido para solucionar esses problemas? Quais têm sido as ações da Igreja para conter e enfrentar os problemas que atingem a América Latina hoje?
Damasceno: Temos que colocar no centro de qualquer projeto político e econômico a pessoa humana, sua dignidade, seus direitos. Acho que as conferências episcopais gerais da América Latina sempre tiveram essa característica, sempre tiveram um fio condutor. A Igreja sempre trabalha nesse sentido de formar as consciências, de orientar as pessoas nessa direção. E também através do seu trabalho social, de promoção social, embora não caiba a ela, digamos, solucionar todos esses problemas ou adotar medidas diretamente que cabem muitas vezes aos políticos, ao Congresso, ao Executivo, à Justiça.
ABr: O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse em seu programa de rádio Café com o Presidente que pretende conversar com o papa sobre as políticas sociais brasileiras e manifestou seu desejo de que o papa Bento XVI dissemine essas políticas para o resto do mundo. A Igreja hoje aprova o presidente Lula e as políticas sociais que estão sendo implantadas em seu governo?
Damasceno: O presidente Lula evidentemente terá toda a liberdade para conversar com o santo padre sobre qualquer assunto que ele desejar, no que diz respeito ao nosso país. Mas a Igreja tem uma doutrina social muito clara, cujo centro é sempre a pessoa humana e seu bem-estar integral. Portanto, a Igreja está sempre a favor de qualquer política que vise promover a pessoa humana e que vise criar condições de vida cada vez melhores para as pessoas e para o país, sobretudo para os mais pobres e excluídos. A Igreja sempre tem defendido essa posição, sem tomar nenhum partido político ou posição político-partidária, mas o critério para avaliar o governo e os projetos é sempre baseado na pessoa humana.
ABr: Alguns jornais publicaram na semana passada que há um desgaste nas relações entre a Igreja e o governo Lula principalmente por causa do ministro da Saúde, José Gomes Temporão, que estaria defendendo debates sobre a legalização do aborto, por exemplo.
Damasceno: A Igreja nunca poderá defender o aborto; sempre se posicionará contra o aborto porque para nós o aborto é um atentado contra a vida, contra a vida logo no seu início, nos seus primeiros momentos. A Igreja não pode jamais aceitar, inclusive baseada no mandamento de Deus que diz “não matar”. Para nós, a vida começa na concepção. Desde a concepção nós já temos um ser humano, que vai se desenvolvendo e já tem o seu código genético; é questão de tempo para o seu desenvolvimento e para chegar a sua maturidade. A vida é dom de Deus e devemos acolhê-la com toda gratidão.
ABr: E no caso de Portugal, por exemplo. Trata-se de um país essencialmente católico onde o aborto foi aprovado. O senhor acredita que no Brasil isso possa ou deva ser diferente?
Damasceno: Pode ser diferente; cada país é diferente. Depende de um trabalho também de maior esclarecimento da população. O importante nessas questões é esclarecer bem a população. Sobre a questão do que se está pretendendo legislar, acho que é preciso de um esclarecimento profundo sobre isso. Mas mesmo que venha a, eventualmente, um dia ser aprovado o aborto, evidentemente que o fiel católico não está obrigado a seguir em nada na legislação nesse sentido porque, como sabemos, há uma distinção daquilo que é legal, daquilo que é ético e moral.
ABr: Há outros assuntos polêmicos, como a restrição da Igreja ao uso de preservativos, à união homossexual, à pesquisa com células-tronco. O senhor acredita que o papa possa vir a ser mais flexível em alguns desses assuntos?
Damasceno: Há questões que para nós são questões de princípios e não se pode, evidentemente, renunciar a certas posições. Mas não posso adiantar nada porque não tenho conhecimento de que assuntos o Santo Padre vai tratar em sua visita ao Brasil.